terça-feira, abril 26

O que aconteceu naquela noite;

"Não vá para o campo vazio, não deixe nada pra trás, por Deus, sei que digo tudo isso por mim, digo que sei tanto o tempo todo, sobre fatos que não sei, que me doem, e sobre o que sou, quando olho a identidade e só consigo ver um monte de pedaços faltando.

Foi nisso que nos tornamos. Somos nossos próprios pesadelos ambulantes, aqueles em que não importa a força de vontade, você vai cair, vai dizer o que não deve, vai matar pessoas bem lentamente. Já não somos o que dizemos, nem o que queremos, agimos automaticamente sem pensar, e quando vemos já está feito, muitos anos se passaram, muitos erros mutilaram os nossos corações, muitas vezes quisemos voltar atrás porque não entendemos o que houve. Entende Adam?

Nós vivemos infinitas vidas durante um tempo já marcado, somos o que somos e deixamos muitas coisas de lado para sermos. Muitas vezes não vemos o que está diante de nós e acreditamos no imutável. Porque aquilo que não muda, acomoda, nos deixa seguros. Então, como todo bom sedentário, nos vemos solitários, cercados por desconhecidos que já não querem nosso bem, desconhecidos da mesma raça, que poderiam ser nossas famílias, nos enxergamos pela primeira vez e a primeira sensação é a da fuga. Todos fogem, sem excessão. Fazemos isso pela autopreservação, fazemos porque nos amamos mais do que amamos alguém que poderia se um "eu", nos amamos porque quando nos magoamos fica claro que é mais fácil perdoar a si mesmo do que exigir perdão.

Dependemos, ficamos com medo e já não gritamos mais. Todos precisam viver essa realidade de vez em quando. Mas me escute Adam, porque não é preciso se prender a ela.

Eu sei que pessoas morrem o tempo todo, sei que isso não importa pois elas logo são subistituidas, sei que soa hipócrita por já ter dito que a mentira se foca no que eu não sei. Mas não precisamos nos prender, essa é a nossa definição.

Mas para muitos de nós, estar livre significa deixa de se importar. Não faça isso! Se importe com tudo a ponto de não conseguir se levantar de culpa apenas por respirar, se importe como se fosse você, porque os outros jamais se importarão. É tudo uma corrida, a velocidade facina, ilude e aniquila tudo que há para se importar. Então não há mais árvores, não há mais planetas, não há mais nebulosas, não há mais pulmões que aguentem tal pressão, eles não precisam suportar, pois logo a corrida terminará e ficará todo mundo bem, nenhuma vida será perdida."

"Clarie... Eu ainda vejo tudo como se nada tivesse mudado. Eu sinto a diferença, eu muitas vezes sou a diferença. Me importar ou não já não é uma decisão a ser tomada, já faz parte de mim. Não devo ser preto e branco. Não devo ventar só para o leste, se há tantos lados, caminhos, e paisagens a serem vistas, a serem exploradas. Tantos universos dentro de cada pessoa e cada pessoa tão única! E mesmo assim elas se prendem entre o amor e o ódio, a vida e a morte. São estágios, eu sei que são. Sei que elas sabem, mas por que não conseguem escapar? Por que insistem nisso? Eu vejo tanto amor e ódio misturados, eu vejo paixão em terminar a corrida, mas vejo algo ainda melhor no percurso. Eu não sou feito de terra ou de água, não sou feito de algo palpável, não quero sumir, eu sou egoísta e mesmo assim o mundo gira sem mim.

Clarie.

Eu não sei quantos passos você já deu, não entendo seus olhos, não compreendo as nebulosas, eles parecem querer chorar por tudo que viram. Eles parecem lutar por qualquer situação. Elas são perfeitas, compreender cada ser do universo. Elas guiam os viajantes de seu deserto, comandam as estrelas, se afogão na imensidão vizinha e mesmo assim se sentem devastadas. Quem é que devasta? Uma chuva no deserto? Como seria possível algo assim? Mas aconteceu, e aconteceu e aconteceu até que você descobriu a causa não foi?

Você quer ser devastada."

"Não é de todo mal ser destruída."

"Você não quer ser lembrada, você quer ser afogada, pois todas as coisas que você domina, tudo aquilo que faz parte de você já foi destruído. Não deveria restar mais nada ai dentro, mesmo assim, "como todo bom sedentário" você caminha, durante séculos, em busca de abrigo, em busca de novas pessoas. Você precisa delas, apesar de já não exister mais um "você". Porque o "você" se perdeu no tempo e espaço, duvidou da própria existência e da própria vida, resolveu se econder no que já era certo para não perder mais oportunidades. Mas Clarie!

Como é possível, se não há nada dentro de você, as estrelas cantarem ao ver seus olhos?! Se emocionarem com as cores das nebulosas?! Ainda há muito ai dentro, tanta coisa perdida, sociedades, tempos, humanos, foram todos engolidos pelos seus olhos, todos têm esperança, e ela é quem te faz andar. Você anda pela esperança da humanidade, por tudo aquilo que ainda existe e têm um significado."

"Quando foi que seus passos se tornaram maiores que os meus? Quando deixei de ver isso acontecer... Certamente eu dormi durante um longo tempo, perdi vidas e eras, mas, veja bem, Adam, eu ainda o tenho. Tenho o vento, tenho o deserto, tenho o tempo e o espaço. Tenho tudo que todos desejam ter, e a cada vida, tenho vícios. Porque depois de um tempo, descobrimos que estes corpos não pertencem só a nós..."

"Você demorou tanto tempo para reparar?"

"..."

"Por que eles pertenceriam a nós?"

"..."

"Se fossem só nosso, nem ao menos saberíamos que possuimos corpos algum dia. Eles pertencem a tudo, a toda existência. Inclusive às minhas estrelas."

"Foi a primeira coisa que você disse quando chegou a este deserto."

"As estrelas cantam quando observam seus olhos."

onde o primeiro dia e o último formaram um laço para que os passos de alguém fossem capazes de andar novamente.

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