terça-feira, outubro 13

- Som do coração -

A primeira batida, não lembro pra quem foi, ecoou mais alto em minha cabeça do que na barriga de minha mãe. Mari, Mari, você tá viva? - Som do coração - Batidas e batidas vinham para lhe confortar, levavam a sensação de tudo dar errado pra longe. Ela vai nascer doente, são todos uns loucos. Mamãe ama papai, diziam os colegas da escola, papai é irmão de mamãe, é comum que eles se amem. Mas é esquisito que você seja filha deles. - Som do coração - Isso está ficando esquisito, tá saindo alto demais. Eu avisei. Ecoavam os berros da vovó pela casa. Eu a crio. Chega de aberrações nesse mundo. Papai se foi, disse mamãe uma vez, fugiu da vovó, dizem que se matou. Achei que fosse corajoso, se escutasse ao menos. - Som do coração - As batidas não paravam, lembravam à mamãe, à vovó e ao papai sumido que a cria desse amor andava por ai. Queriam saber até quando isso permaneceria, fonte de toda desgraça, ao menos pensava nos outros? Tum tum. - Batidas, batidas, era o coração? -

Isso bate diferente, vê? - Posiciona a mão no coração - Não bate. Bate sim, o som sufoca, traz lembrança a todos. - Afasta a mão - Ele se cansou, como se não bastasse, me arrasta todos os dias, me pergunto se ele não pensa em voltar a superfície. - Som do coração, som do coração - Gritaram outro dia na casa ao lado. Ouvi dizer que a menininha foi internada. Já viu aqueles olhos? Eles pulsam ao som do coração, não param, sabem de tudo. - Som do coração - Esse som não é meu. Gritou a voz lá no fundo. De quem é esse som que bate com tanta amargura. Ah, já estive aqui antes. É a barriga de quem gera. - Som do coração - Já os sinto mesclando, não há diferenças.

Um comentário: